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Sábado, nove e meia da manhã. No quinto andar do hotel Lancaster, em Copacabana, Reynaldo Gianecchini diz "bom dia" com um sorriso amplo. Ele está rodeado pela equipe que vai fazer o ensaio fotográfico e comenta bem humorado que o sol poderia chegar até a varandinha da suíte. Olha para o mar e, de perfil, sua beleza lembra a das estátuas romanas.
Ele veste uma pólo marinho e uma bermuda no mesmo tom. A pele branca ressalta os grandes olhos, acesos. O tom de voz é manso, mas firme, e os gestos são elegantes. Espontâneo, caloroso e sutil, Giane fala olhando nos olhos e acredita no que diz. Aos 33 anos, ele tem uma personalidade, antes de tudo, refinada.
Do personagem, Pascoal, da novela "Belíssima", de Silvio de Abreu, ele mantém as unhas escuras que simulam graxa e o cabelo com pomada para acentuar o visual desarrumado, típico do mecânico irresistível que todas as noites provoca ebulição nos hormônios femininos.
De modelo internacional a ator respeitado, há uma trajetória de quase uma década. No teatro ele passou pelas mãos de José Celso Martinez Corrêa e Gerald Thomas. Agora, no melhor momento de sua carreira, o garoto de Birigüi, interior de São Paulo, tornou-se não só um cidadão do mundo como um profissional empenhado em estudar e diversificar seu trabalho provando que, às vezes, é possível, sim, ser bonito e talentoso.
Sentado numa poltrona anos 50, Giane concorda que sua carreira pode ser dividida em antes e depois de Pascoal: "Sem dúvida é o personagem com mais nuances que já fiz, o que me permite integrar mais elementos a ele. Você não pode acrescentar elementos quando faz um mocinho, herói ou galã - pode ficar estereotipado. O mais gostoso é poder brincar nesse universo da comédia, que é uma coisa muito nova pra mim. Assimilei uma influência que vem do personagem de Vittorio Gassman em 'O incrível exército de Brancaleone', um anti-herói engraçado, que faz tudo errado e é muito carismático".
O sotaque caipira, no entato, foi idéia sua e é típico de Birigüi. "Eu tinha um sotaque mais carregado do que o que faço na novela. Já mudei muito ao longo de todos esses anos, mas vira e mexe me pego falando assim. Mas sem erros de português", explica.
Diante da palavra sucesso, mostra-se cuidadoso; prefere fazer uma reflexão: "Penso nesse trabalho como um grande acerto porque o fato de estar numa novela, de qualquer forma, já é sucesso. A gente nunca sabe como vai ser o próximo trabalho, né? Sei que vou continuar dando a cara".
Quando o assunto gira em torno de sua estréia na televisão, ele respira fundo e confessa: "Foi uma loucura! Primeiro porque caí em uma novela das oito, do Manoel Carlos ("Laços de familia", 2000), com um papel difícil, no núcleo dos protagonistas. E ainda peguei pela frente a Vera Fisher e a Marieta Severo. Eu não tinha experiência nenhuma e gravava trinta cenas por dia. Hoje sei que o que vale mesmo na tevê é a experiência. Não dá pra pular etapas, a não ser que a pessoa tenha um talento assombroso, o que não é o meu caso. Era o primeiro a perceber que meu trabalho era insuficiente e isso, para mim, era muito doloroso".
Gianecchini não planejava ser modelo, assim como não pensava em ser ator. Ele lembra: "A minha primeira idéia, racionalmente falando, era ser diplomata porque sempre quis conhecer o mundo inteiro. Queria ser alguém bem sucedido, um cara cabeça aberta, sem preconceitos para experimentar a vida de forma ampla".
A carreira de modelo começou quando cursava o primeiro ano de direito, em São Paulo, e garantiu sua independência econômica. "Meu pai pagava minha faculdade, não achava certo. Meus pais davam duro. Os dois são funcionários públicos. Me sentia mal em estar usando o dinheiro deles e aí resolvi ser modelo".
Deu certo e, depois de formado, foi morar na Europa, onde fez uma carreira de muito sucesso. Foi em Paris, quando conheceu pessoalmente Marília Gabriela, que sua vida mudou. "Ela foi a pessoa que me deu o primeiro grande chacoalhão para eu acordar. Quando ouvi: 'Pôxa, você é bem mais do que um modelo', aquilo me fez pensar que não estava trabalhando o que tinha dentro de mim."
Bem, ela provocou uma crise existencial? Ele começa a rir e concorda: "Fiquei seis meses em crise. Resolvi que não queria mais ser modelo - queria estudar para ser ator, mas não tinha outro meio para sobreviver. Meu dinheiro vinha dessa profissão e eu viajava muito naquela época. Para estudar tinha que parar em alguma cidade e, se eu parasse, como faria para sobreviver?"
Só posso supor que foi amor à primeira vista o que sentiu por Marília Gabriela!
Ele faz uma pausa e fala mais baixo, com carinho: "Minha relação com a Marília começou devagar, mas foi amor à primeira vista. Na primeira noite, já ficamos juntos. Na nossa cabeça não era uma relação que poderia dar em casamento, porque eu morava lá e ela aqui. A gente começou a achar tão bacana esse encontro que ela se encontrava comigo de quinze em quinze dias. Ela podia, né? Pegava o avião e ia me ver. Se não fosse a Marília, jamais teria voltado para o Brasil. Aí, talvez, nunca teria me tornado ator".
Marília Gabriela é uma mulher culta e refinada. Pergunto se ele conseguiria se apaixonar por alguém sem conteúdo intelectual. Sem titubear, ele responde: "Adoro a mulher multifacetada. Acho incrível uma mulher que possa circular em todos os mundos, ser desde uma bagaceira e falar bobagens a uma mulher inteligente, com humor e que sabe falar sério. É isso que me fascina na Marília".
A voz, na sua opinião, tem a maior importância como detalhe sensual, mas ele acrescenta: "Também adoro uma bocona, um olhão, às vezes um nariz grande. Mas a voz é a coisa que mais me pega".
E a fidelidade? Sem perder a tranqüilidade, fala o que sente: "Dá muito pano pra manga, mas sou um cara fiel por natureza. Gosto de ter uma mulher e estar bem numa relação. Caso contrário, preferiria estar sozinho e viver a vida de solteiro, que é interessante também".
Ele garante que é fácil lidar com o ciúme. "nós dois somos ciumentos na medida. Aí entra a opção de ser um cara fiel, que é
realmente a minha, porque gosto de ser assim. è muito gostoso ser ator porque você vai lá, beija, brinca com suas fantasias e volta pra casa lindo e fiel!"
Já que Giane fala em Fantasias, pergunto se ele faria um personagem gay. Sua reação em tudo a ver com postura de vida. Se há um tema que o deixa invocado, é o preconceito d um modo geral. "eu faria, sim, um personagem gay, porque acho incrível que o homossexual seja ainda tão estigmatico." Também não se importa o que as pessoas pensam em relação à diferença de idade entre ele e Marília Gabriela. "Nunca me preocupei em seguir regras. Essa é a característica número um da minha personalidade. Até gosto de certos rituais da tradição, mas odeio fazer alguma coisa
porque foi dito que tem que ser feita. Nunca passo pela minha cabeça se as pessoas iriam aprovar ou não o meu casamento com a Marília. Nem com os meus pais me preocupei, e eles aprovaram de cara. Agora, se não tivessem aprovado, não sei como seria porque eu, na verdade, nunca me submeti à aprovação de ninguém. Quando estou seguro do que quero, faço. Afinal, a vida é minha e estou em busca da minha felicidade. Não tenho que corresponder às expectativas das pessoas."
Este é um tema polêmico para Giane. Ele continua: "Estou numa fase de discutir muito isso, porque esbarra no preconceito por ser um ator que era modelo. Tem também o preconceito dos colegas de classe, que acham que você incapaz de interpretar determinado papél. Já ouvi: 'Não acreditava muito em você, estava com preconceito de vir trabalhar com você.' Uma coisa horrorosa, mas que infelizmente está dentro das pessoas".
Ele admite que algumas vezes já teve atitudes preconceituosas, mas luta contra isso. "Nesse momento estou lidando com outro preconceito. Fui tentar comprar os direitos de uma peça, porque estou com um projeto, um roteiro que quero fazer pra cinema. É um conto de uma escritora brasileira. Ela já está morta e a dona dos direitos não quis me vender por puro preconceito. Ela falou que eu estava muito na mídia, que eu era um cara de televisão. Não acreditei no que ouvi - um cara da mídia, um cara da televisão -, como se isso fosse uma coisa negativa. Aí pensei em como as pessoas são preconceituosas. Elas não querem saber qual é o projeto que você vai fazer, qual a sua intenção, o grau de seriedade que você tem como ator. Não, elas compram uma imagem sua pré-concebida, como se você não tivesse conteúdo algum. Eu fiquei chocado com isso. Já que a gente está falando em preconceito, quero dizer que adoro a raça negra".
Para atenuar a tensão, procuro saber se ele se acha bonito. Em segundos volta o sorriso. "Gosto do meu conjunto, mas fico muito impressionado quando as pessoas me colocam como padrão de beleza. Pelo menos para mim, não sou um padrão de beleza."
Impossível não perguntar quem ele considera bonito. "Pra mim, homem bonito é o Johnny Depp. Ele não é exatamente um homem bonito, mas tem uma ossatura... O Brad Pitt é um dos caras mais cool que já vi."
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